6 de dez de 2017

Réquiem para um livro mutilado

Há somente uma maneira de reparar e encadernar livros:

Com muito trabalho e com a melhor técnica.

Qualquer outra forma resulta em livros mutilados. Esta semana apareceu este pobre livro.

A capa foi feita com baixos padrões, material frágil e sem nenhum tipo de reforço. Não foi feito há muito tempo, talvez uns quatro anos atrás, no máximo.


O ato criminoso foi praticado no miolo do livro. Pois foi simplesmente guilhotinado na dobra dos cadernos.


E depois furado com furadeira elétrica e amarrado. Vejam como as margens internas ficaram reduzidas.


Desta forma, já não é mais um "livro", mas apenas um bloco de folhas soltas.

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Agora, se tentar juntar as folhas e formar cadernos novamente, com uma fita de papel vegetal fino unindo as folhas, por exemplo, vai ficar um volume enorme de mais de 150 fitas dobradas, pois é um livro de 300 folhas.

É de chorar ver esse tipo de dano causado a um livro.

E não tem desculpa para o que foi feito. O papel ainda estava inteiro, com alguma oxidação mas ainda maleável.

O encadernador desconhece as técnicas e não tem nenhum respeito pelo material.

O titular do cartório permitiu que esse desastre acontecesse por desinteresse, ignorância ou mera economia.

É uma pena.

Aqui, marca d'água do fabricante do papel, em 1925.


O pior de tudo é que, certamente, este tipo de crime continua sendo cometido, mesmo nesse momento, em mais de um lugar neste Brasil.

29 de out de 2017

Detalhes de encadernação clássica

Alguns detalhes do trabalho de encadernação
feito para cartórios de Curitiba. 

Um detalhe de acabamento da lombada interna de livros.
Provavelmente, nunca será visto por ninguém, mas precisa estar bem acabado
e guarnecido com papel marmorizado. 


A proporção entre o espelho - assim chamamos esta parte em tela marmorizada entre a lombada e os cantos da capa - e os cantos em couro deve sempre respeitar o tamanho do livro e a relação áurea entre os elementos. 


Lado interno das capas, ainda antes de um acabamento final.


Parte interna de uma pasta para cerimônias de casamento.


Capa de pasta para cerimônias de casamento.



27 de set de 2017

O maior inimigo do livro

O maior inimigo de um livro é um encadernador sem técnica.

O Tempo não é inimigo do livro, pois o Tempo valoriza a obra bem feita e passa pelo livro naturalmente.

As Pessoas não são os piores inimigos do livro, pois mesmo o manuseio mais descuidado apenas revela a utilidade e o interesse das pessoas pelo conteúdo do livro.

O maior inimigo de um livro é um encadernador ruim, preguiçoso, mesquinho e desrespeitoso.



Vejam estes livros.

São três livros, datados de 1893 a 1914, com marca d'água AL MASSO, que sofreram uma interferência desastrosa de alguém que CORTOU OS CADERNOS! Em seguida serrou as folhas para somente amarrar, fazendo diversos pequenos cortes talvez para penetração de sua cola. E USOU COLA DE SAPATEIRO!!!!


Transformou o livro em um BLOCO.
Não restaurou as folhas
 e guilhotinou os quatro lados do livro.


Este outro livro, também de 1914, passou por uma interferência razoável talvez nos anos 1960 e apresenta os cadernos ainda intactos.

Aquele que se diz encadernador faz um trabalho tão precário que destrói e mutila um livro e ainda tem coragem de cobrar por isso.

Tenho restaurado e encadernado livros antigos, velhos e recentes.

Quando um livro nunca sofreu nenhuma interferência o trabalho é muito fácil. Basta reparar os rasgados, reforçar as dobras de cada caderno, costurar os cadernos, elaborar a capa e o trabalho está feito.

Mas a maioria dos livros que tenho restaurado já passaram por mãos sem conhecimento e habilidade.

Estão sem nenhum restauro ou reparo das folhas. Estão serrados e amarrados. Cola foi aplicada em cima das dobras rasgadas dos cadernos, penetrando mais profundamente ainda, sendo penoso e danoso desmembrar os cadernos.

Esses livros estão simplesmente guilhotinados, com redução das margens e até com perda de texto, pois alguém não teve o capricho de reparar as avarias e manter o livro íntegro. Muitas vezes completamente torto!

O mau encadernador é capaz de muitos outros erros, como usar fita adesiva e mesmo fita crepe, jogar fora as etiquetas do fabricante original e as capas originais e as orelhas do livro, usar capas muito maiores do que o livro, colar o lombo falso na lombada interna do livro, costurar os cadernos sem serrotar o cortando o papel com a agulha, usar cola de sapateiro em material sintético e a cola se transforma em óleo e se desfaz.

O mau encadernador é um pesadelo para o livro e um pesadelo para o encadernador técnico e competente que depois precisa primeiro desfazer todos os erros cometidos para só então poder fazer o bom trabalho.

E vou dizer em desabafo:

NUNCA ENCONTREI NENHUMA ENCADERNAÇÃO PELO MENOS RAZOÁVEL EM TODOS OS MEUS ANOS DE TRABALHO.

Nunca me deparei com um livro bem refeito, seja de livros de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou Paraná. Lugares onde já atuei. Todos sempre precários, errados, feios e criminosos. Todos de uma pobreza atroz.

Sendo assim: PRENSA NELES.


22 de mai de 2017

O PUXA SACO

Resultado da grande, nobre e centenária
 Arte da Encadernação Clássica.

Pedro Malanski apresenta
 o seu glorioso Puxa Saco!

Um auxiliar precioso na hora de guardar aqueles saquinhos de supermercado que são tão úteis e preciosos à distinta senhora dona de casa e ao distinto cavalheiro dono de casa.

Seu uso não exige prática e nem habilidade e qualquer pessoa pode fazer um rolinho com cada saquinho e enfiar no seu Puxa Saco.

Quando necessitar um novo saco para o lixo da cozinha, do banheiro ou do escritório, basta pegar um rolinho. 


Não precisa prego nem adesivo na parede!

É lavável, apenas basta passar um pano e pronto!

Feito de papelão e papel marmorizado 
com tinta esmalte impermeável!

Em vários e úteis tamanhos,
do tamanho de sua família! 

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Produto exclusivo e de produção limitada!

Conheça aqui o novo, revolucionário e indispensável Puxa Saco!
Puxa Saco

(Pior que perder um tempinho fazendo essas coisas no atelier, é ter a paciência de escrever um reclame propagandístico.)

21 de mar de 2017

Onde Comprar Material de Encadernação

Desventuras de um encadernador
na busca de material de trabalho em Curitiba.

A cada dia que passa, minha cidade fica menor.
Largo da Ordem
Aquarela do Barbetta

Cada vez que fecha uma empresa.

Cada vez que vou comprar meu material de encadernação e aquela empresa não vende mais.

E assim Curitiba vai ficando cada vez menor.


Aconteceu com o papelão Coru. Feito de casca de arroz, tem muito mais densidade e rigidez do que o papelão cinza ou do que o papelão feito de material reciclado que está dominando o mercado. Aliás, esse papelão poroso e mole não deve ser realmente reciclado, mas papelão de baixa qualidade que se diz reciclado.

Sempre esteve à venda em todas as gramaturas na Casa do Sapateiro. Hoje só encontro os mais finos, usados para fazer bolsas.

Curitiba não tem um local onde comprar todos os materiais de encadernação, assim é preciso comprar cada um em um lugar diferente.

Papéis é na Santa Maria Distribuidora, que vende a granel e guilhotina se for preciso. Tem quase tudo em papéis no formato 66 x 96 cm, papelões comuns e algumas colas para gráfica.

Tecido em algodão cru para fazer tela e marmorizar, agora só tem na Rua Bley Zornig, lá no Boqueirão. Antes, encontrava retalhos a quilo nas casas de couro da Rua Dr Muricy, hoje só por metro e mais caro.

Colas tem que comprar em casa de tintas ou de materiais de construção, limitado a usar a cascorez extra em embalagem de um quilo, por ser a única de acidez tolerável. Ultimamente, estou pagando dezenove reais pela embalagem de um quilo na Tintas Virgínia. O preço é menor do que em qualquer outro lugar.

Fitas para reforço externo na dobra folha de guarda, encontro em uma ou outra loja de armarinhos.

Não tem nenhum lugar para comprar espátulas de osso ou de silicone. Quando encontro, só uma ou outra de silicone em loja de material de artesanato. Mas são caras, desconfortáveis e grosseiras, umas coisas quadradas e grossas, indicadas para finalidades diferentes da encadernação.

Couros, se tiver sorte e oportunidade, nas casas de couro da Rua Dr Muricy. Como a sorte é madrasta, raramente encontro o couro que procuro e preciso me contentar com aqueles disponíveis. Bom mesmo é comprar um couro flexível, fino ou grosso, que não parta nem escame e que aceite bem a cola branca. Só em dia de sorte. Assim, cada couro é um novo aprendizado de como trabalhar.

Nestes mesmos lugares, encontro fios para  costura. Linha de três fios encerados, de preferência. A Casa do Sapateiro voltou a vender papelão coru, em gramatura fina, vendido por quilo.

Vulcapel, só e unicamente na casa de couro do Schmuk, por enquanto.

Cera de abelha para encerar os fios de costura e às vezes passar em papéis tomados por fungo, só numa lojinha de materiais de construção ali na Mateus Leme. Já foi-se o tempo de comprar na Casa Vermelha ou no Senff Ferragens.
Arranjei uma cera boa na Feira de Inverno da Praça Osório, nas barracas que vendem mel.

Lembrei agora que já faz uns vinte anos que deixei de usar cola orgânica, aquela feita de gelatina animal e usada em banho-maria, por ter desaparecido inteiramente de todas as lojas de Curitiba. A última que encontrei, justamente no Senff ali atrás da Catedral, estava tão suja e contaminada que os livros ficaram com cheiro de podre.

E não adianta nem perguntar se tem Alvaiade. Ninguém mais sabe o que é ou para quê serve. É um espessante usado até por Da Vinci, misturado com gelatina e outras coisas, para fazer suas telas de pintura.

Fita para douração é um parto. Só havia a Personalizze, ali no Rebouças, mas fechou (Fechou coisa nenhuma, está no mesmo lugar e agora mesmo voltei de lá com a fita de ouro que eu precisava!) Estou com esperança de encontrar numa empresa ali na Mateus Leme, a Tegape,  e amanhã vou procurar. Se não encontrar, não sei a quem recorrer. (Eles tem só o rolo de 60 centímetros de largura, todas as fitas com fundo prata, mas atendem que é uma beleza e não servem para o meu trabalho).

Isso tudo sem falar de onde encontrar ferramentas de encadernação em Curitiba. Simplesmente ninguém sabe sequer o que é um brunidor, não existe estilete largo com guia de metal, só tem lâminas quebradiças da China...   

E assim ficamos. Cada dia menores em Curitiba.

5 de fev de 2017

Valor Histórico e Artístico do Livro Oficial

O Valor Histórico e Artístico do Livro Oficial

Afirmação:

O livro Oficial tem suficiente valor histórico e artístico para ser elevado à categoria de Patrimônio Histórico!

Justificativas:

Os livros oficiais são aqueles preenchidos e guardados pelos Cartórios Civis ou de Registro de Imóveis e neles são oficializados os atos ocorridos na vida civil de todos os cidadãos.

São os livros de Nascimento, Casamento, Óbitos, Escrituras, Procurações, Averbações e tantos outros, que retratam fielmente a história dinâmica de nossa Sociedade.

Através deles, é possível refazer a história de cada indivíduo, traçando a trajetória precisa de sua vida. Seu nascimento, casamento, operações comerciais, problemas pessoais, conflitos e litígios, associações, seu falecimento e o destino de seus bens. Todos os atos são verdadeiros e incontestáveis, pois foram cercados de todas as formalidades que a Lei exige e sobre eles não há controvérsia.

O mais antigo livro data de 1888, data da proclamação da República no Brasil. São exceções a esta regra os livros de "acathólicos", ou seja, pessoas de outras religiões que não a católica, preenchidos em Curitiba pelo Presidente da Província antes de 1888, enquanto os demais livros eram atribuição da Igreja Católica.

Com o evento republicano, os primeiros Cartórios, mais antigos, herdaram os livros de acatólicos e passaram a cuidar de todos os outros.

Além de guardar informações históricas, os livros deste período tem atributos e características únicas. Eram feitos a partir de papéis de alta qualidade e resistência, em sua maioria. Pois, naqueles dias, usava-se papel feito com árvores nobres como, cedro, pinheiro e mogno, então abundantes nas florestas naturais. Produzir papel com essa matéria prima resultava em um produto com fibra longa, resistente ao manuseio e à passagem do tempo. Além disso, têm a estética própria de seu tempo.

A técnica de encadernação não era perfeita, se utilizados critérios clássicos para julgamento. Era apenas a "encadernação comercial" praticada na época e utilizava razoáveis métodos de costura manual ou mecânica e muito couro, percalina e outros acabamentos resistentes. Um detalhe especialmente danoso para a conservação desses livros é a técnica de "meia-cana", que consiste em fazer a lombada falsa em forma de meia lua rija, para forçar a abertura completa do livro como uma alavanca, permitindo manuscrever com a folha completamente plana. Como força as costuras, acaba por rompe-las. 

Este livros trazem a marca do tempo em que foram produzidos, muitos materiais hoje extintos, marmorizações, técnicas fora de uso, dourações primorosas, nervuras e brasões, curiosas etiquetas de fabricante e grafias especiais.

Este conjunto de características retrata e exprime seu próprio período na história.

Muito mais do que documentos oficiais para consulta, verificação e base para emissão de certidões, os livros oficiais são Documentos Históricos.

A responsabilidade por sua guarda e preservação devia ser compartilhada com o Estado, sua existência catalogada e registrada e seu uso fiscalizado para que suas características originais sejam mantidas ou conservadas.

Esta é minha Tese.


Várias fases de encadernação.

25 de jan de 2017

Novos Cartorários Devem Exigir Qualidade

Estão acontecendo mudanças nos Cartórios.
Depois de anos de indefinição, judicialização e insegurança generalizada, novos titulares estão assumindo.
Fizeram concurso público, alcançaram qualificação e assumiram as pesadas obrigações de quem tem por responsabilidade principal produzir e guardar documentos públicos, desde registros de nascimento, casamento e óbito, até escrituras, procurações e registro de imóveis, além de muitos outros procedimentos oficiais necessários à vida formal dos cidadãos.
O evento é favorável aos que chegam e bastante constrangedor para aqueles que saem, pois alguns são a segunda ou terceira geração da mesma família cuidando do cartório e tem apegos previsíveis.

Desejo boa sorte e prosperidade a este novos titulares.


Mas preciso ALERTAR para uma série de medidas que devem adotar como norma e padrão de qualidade na produção desses documentos públicos.


ESCOLHA DO PAPEL


É simples: use somente papel de qualidade. 

Padronize o uso de papel no formato A4 (29,7 x 21,0 cm) na gramatura 96 gramas. É mais vantajoso pois ocupa menos espaço e resulta em livros mais leves e manuseáveis.
O bom papel é aquele que tem ACIDEZ aceitável, ou seja, não vai amarelar em pouco tempo.
A marca de qualidade apresenta todas as folhas sempre do mesmo exato tamanho, enquanto marcas vulgares ou desconhecidas tem diferença de milímetros entre um lote e outro de papel.
A boa marca de papel é realmente da cor BRANCA.
O bom papel tem a espessura (gramatura) exata de 96 gramas.

EXIJA DO ENCADERNADOR


Exija que seu encadernador use técnicas honestas de encadernação.,

Peça que use reforços adequados.
Use duas folhas em branco no começo e no fim do livro, para proteger o conteúdo oficial da acidez da cola e do papelão da capa.

Descrevo em pormenor o que julgo ser a melhor técnica de encadernação, em minhas NORMAS TÉCNICAS, as quais tenho oferecido à exaustão às autoridades do C. N. J. - Conselho Nacional de Justiça - nacional e local. Mas não tenho encontrado boa vontade. Atualmente, poucos são os que sabem a diferença entre uma encadernação vagabunda e outra feita com técnicas apropriadas, apesar de usando os mesmos materiais básicos. A diferença é que uma não resiste ao simples manuseio e a outra nunca precisará ser refeita.


Infelizmente, tenho certeza que o Titular de Cartório  NÃO VAI ENCONTRAR NENHUM ENCADERNADOR que use uma boa técnica, pois muitos nem mesmo sabem fazer alguma coisa um pouco melhor e para além da frágil encadernação "capa dura" comercial.


Esses encadernadores básicos e limitados sabem que daqui a alguns anos vão poder REFAZER esses mesmos livros e contam com isso. 


Portanto o Titular DEVE EXIGIR que ele aprenda e aplique uma técnica melhor nos seus livros. Não é difícil aprender e um artesão deve sempre evoluir em seu trabalho, mas exige um pouco mais de mão de obra.


Portanto, sejam rígidos e perfeccionistas e não aceitem as pobres e frágeis encadernações oferecidas normalmente por aí, seja no centro de São Paulo ou no sertão nordestino.


Copie as normas e encaminhe ao seu gerente, ao seu encadernador e à sua gráfica.


Vai ver que o resultado é economia, qualidade, beleza e credibilidade. 


Ainda vai me agradecer.

4 de dez de 2016

Livros Oficiais, Documentos Públicos Preservados

A cidade de Jaguarão - RS fica a 1.120 km daqui, mas a distância não é obstáculo. Estes livros estavam completamente tomados por pragas ainda vivas e atuantes, as costuras estavam podres e as capas não existiam mais. Cada uma das folhas precisaram de algum reparo ou emenda, muito quebradiças e com fungos.

Parte de um lote de 20 livros, dos piores do acervo, estou absolutamente certo de que nenhum outro encadernador seria capaz de um trabalho desta qualidade.

Quanto ao titular do Cartório, merece das autoridades pelo menos uma menção honrosa pelo trabalho e custos que está tendo para recuperar o acervo da cidade, pois em cada um destes livros está a história dinâmica daquele povo.

Não apenas este ser humano de alto nível de responsabilidade, mas todos os outros que também enfrentam distâncias, custos de correio, relutância de corregedores, falta de informação e ainda assim preservam e dão condições dignas ao acervo de livros e documentos sob sua égide.

A todos de minha lista de clientes o meu reconhecimento pelo heroísmo.

Como estavam as capas, devoradas por pragas,
o dano se estendia a boa parte das primeiras e últimas folhas
O principal atrativo deste material é a cola orgânica (gelatina), usada antigamente.




Alguns livros já terminados.








8 de nov de 2016

Carta ao J. D. Salinger

Carta pro J. D. Salinger

Caro Jerry Salinger


Como sei que você continua antenado com o que acontece em seu nome pelo Mundo, vou mandar pro astral da internet um recado prá voce ler.


Fique de boa. Não vou encher muito seu saco, cujo saco todo mundo sabe já encheu faz tempo.


Andam dizendo por aqui que você foi importante demais por ter sido o primeiro a por no papel impresso a voz da juventude  norteamericana. E isso é só o que falam de bom.


Dizem também que voce era um pedófilo sofisticado e que inspirou meia dúzia de mass murder. Que A Guerra te deixou tão travado na adolescência que nunca amadureceu e se tornou homem. Que nunca mais escreveu nada de bom e que, na melhor  das hipóteses, tinha uns parafusos de menos na cabeça.


Não vou dizer que te entendo. Mas, se no seu tempo já era difícil ser um INDIVÍDUO, voce não imagina o quanto hoje isso é impossível, penoso e tudo mais.


Aqui tá foda!


Andei pensando em voce ao dar uma  encadernada no The Catcher in the Rye.


Tenho o livrinho faz tempo e tava bem baleado. Aí juntei mais umas informações, dei uma consertada e encadernei.


Me deu a idéia de fazer a capa com um couro preto para representar o abismo e outro couro claro amarelinho para o campo de centeio, entende?


Para a ilustração, fiz aqueles bonequinhos de papel de mãos dadas, conhece?  Cortei em papel grosso e prensei no couro claro ainda úmido de cola. O negócio é para ficar parecendo um bando de crianças à beira do abismo. Ficou mais ou menos.


Fico pensando que é o que acontece hoje aqui: A gente indo pro buraco todo mundo junto, ainda cantando alguma musiquinha meio besta, de mão dada e tudo.


Tá bom! Gosto mais da metáfora do abismo como lugar onde sacrificamos nossa inocência e Holden nos socorre se tivermos sorte.


Agora o título.


“O Apanhador no Campo de Centeio”, prá mim, é uma merda de título apesar de voce ter aprovado, dizem. Mas é melhor do que no português de Portugal: “Agulha no Palheiro”. E muito melhor do que a proposta dos tradutores brasileiros “A Sentinela do Abismo”, bem no estilo pomposo-meloso que todo mundo curte por aqui.


Então mandei ver só “THE CATCHER”.


O livro é meu, o trabalho é meu. Mas te dou essa satisfação,  se por via das dúvidas voce ainda estiver de olho nas coisas por aqui.

Fique na tua aí.

Seu admirador,


Pedro Malanski


Fotos  da encadernação 


Folha de Guarda com marcador do mesmo papel


Capa da segunda edição brasileira


Capa da edição especial em capa dura


Foto da contracapa das primeiras edições americanas
mandou retirar das seguintes 


Última foto conhecida de Salinger, em 2008




E É ISSO.

Frases de J. D. Salinger

It was that kind of a crazy afternoon, terrifically cold, and no sun out or anything, and you felt like you were disappearing every time you crossed a road.

I used to think she was quite intelligent , in my stupidity. The reason I did was because she knew quite a lot about the theater and plays and literature and all that stuff. If somebody knows quite a lot about all those things, it takes you quite a while to find out whether they're really stupid or not.

Pomba, só porque uma pessoa morreu não quer dizer que a gente tem que deixar de gostar dela... Principalmente se era mil vezes melhor do que as pessoas que a gente conhece e que estão vivas e tudo.

As pessoas sempre batem palmas pelas coisas erradas.

O homem imaturo é aquele que quer morrer gloriosamente por uma causa. O homem maduro contenta-se em viver humildemente por ela.

Trecho final de "Um dia Perfeito para um Peixe Banana"

"If you want to look at my feet, say so," said the young man. "But don't be a God-damned sneak about it."
"Let me out of here, please," the woman said quickly to the girl operating the car.
The car doors opened and the woman got out without looking back.
"I have two normal feet and I can't see the slightest Goddamned reason why anybody should stare at them," said the young man. "Five, please." He took his room key out of his robe pocket.
He got off at the fifth floor, walked down the hall, and let himself into 507. The room smelled of new calfskin luggage and nail-lacquer remover.
He glanced at the girl lying asleep on one of the twin beds. Then he went over to one of the pieces of luggage, opened it, and from under a pile of shorts and undershirts he took out an Ortgies calibre 7.65 automatic. He released the magazine, looked at it, then reinserted it. He cocked the piece. Then he went over and sat down on the unoccupied twin bed, looked at the girl, aimed the pistol, and fired a bullet through his right temple.
J. D. Salinger